Os argumentos "pós-modernos", "pós-estruturalistas" ou "pós-marxistas" tornaram-se hegemônicos nas academias e meios de comunicação neste final do século XX, tendo como argumento central o fim da era das grandes narrativas oriundas do Iluminismo, entre as quais o marxismo. A crítica a este se tornou constante na maior parte das epistemologias produzidas nos últimos anos. Subestimar as teses "pós-modernas", considerando-as como simples modismo é ignorar como a reestruturação capitalista e imperialista em curso é produzida também em forma de teoria e ideologia.

No entanto, se hoje ainda não se desenvolveram no campo do marxismo respostas individuais como as de Marx Engels ou Lênin, algumas obras coletivas têm tomado iniciativa de se contrapor aos argumentos de que a teoria marxista não consegue mais dar conta da complexidade da realidade. Uma dessas respostas veio da obra Em defesa da História – marxismo e pós-modernismo, organizada por Ellen Meiksins Wood e John Bellamy Foster.

Na obra, marxistas da Índia, Inglaterra, Canadá e Estados Unidos procuram responder aos principais desafios da teoria do conhecimento na atualidade, tratando de temas diversos e aparentemente sem relação como linguagem, cultura, nacionalismo, papel dos intelectuais, raça, feminismo e meio ambiente. No entanto, todos esses temas são abordados dentro de uma perspectiva totalizante, em relação ao modo de produção capitalista dominante e sem perder a perspectiva teórica de classe.
Na introdução Ellen Wood evidencia o centro das direções das teses "pós": "Os pós-modernistas interessamse por linguagem, cultura e 'discurso'. Para alguns, isso parece significar ( … ) que os seres humanos são constituídos de linguagem e nada mais, ou, no mínimo, que a linguagem e tudo que podemos conhecer do mundo e que não temos acesso a qualquer realidade". Realmente, a tese da incognoscibilidade do real, com o argumento de que tudo que existe é discurso, nada mais é do que a renovação dos velhos axiomas idealistas, mas agora trazendo como "novidade" a negação de qualquer racionalismo e universalismo ou da concepção marxista de emancipação humana geral.

Como explica o cientista político David
McNally, em um dos textos no livro, "o novo idealismo e a política que acarreta não são simplesmente curiosidades inofensivas: constituem uma abdicação à responsabilidade política, sobretudo em uma época de feroz reestruturação capitalista, de abismos cada vez mais profundos entre ricos e pobres, de ofensiva da classe dominante contra programas sociais. E são também um obstáculo à reconstrução de movimentos de massa de protesto e resistência".

Wood acrescenta ainda que os "pós-modernistas enfatizam a 'diferença': identidades particulares como sexo, raça, etnia, sexualidade, suas opressões e lutas distintas, particulares e variadas; e 'conhecimentos' particulares, incluindo mesmo ciências específicas de alguns grupos étnicos"; enquanto que o marxismo supostamente reduziria a "variada complexidade da experiência humana a uma visão monolítica de mundo 'privilegiando' o modo de produção como um determinante histórico: a identidade de classe, e não outras 'identidades' e os determinantes 'econômicos' ou 'materiais' em lugar da 'construção discursiva' da realidade". No entanto, em um dos textos, entre muitos sugestivos do livro, abordando a questão racial, um dos temas preferenciais dos teóricos "pós-modernos", o escritor Kenan Malik, radicado em Londres, argumenta que se ratarmos a raça como sendo apenas uma “ identidade' separada de quaisquer determinações sociais, então ela se torna não uma relação social historicamente específica, mas um aspecto eterno da sociedade humana – da mesma maneira que acontece nas teorias biológicas reacionárias de raça, nas quais as diferenças raciais constituem uma necessidade natural e permanente".

Percebe-se, assim, mais claramente qual a direção das teses "pós" e de sua visão fragmentária do mundo e do conhecimento. Por isso, também, se entende a máquina de guerra contra a dialética materialista e totalizante do marxismo, levada adiante pelos desconstrucionistas da "pós-modernidade", inclusive construindo um discurso de que a diferença e a complexidade sempre foram ignoradas pelos marxistas, uma vulgata tão idêntica àquela que os "pós" identificam em certas leituras dogmáticas e positivistas do marxismo, como se fosse o marxismo como um todo.
Dessa forma, os vários textos que compõem Em defesa da História são uma resposta para a tentativa de hegemonização do "pensamento único" que vem defendendo o micro e o fragmento como única forma de explicação da diversidade do mundo.

Diorge Konrad

EDIÇÃO 58, AGO/SET/OUT, 2000, PÁGINAS 80